domingo, 25 de julho de 2010

O PODER DO VOTO FEMININO

Por que as campanhas precisam falar para as mulheres?

Não só porque são maioria do eleitorado e nem porque nesta eleição há duas candidatas competitivas –Dilma Rousseff e Marina Silva–, mas também porque a cada ano ficam mais evidentes as diferenças de percepção e comportamento entre eleitores e eleitoras.

Historicamente tem-se observado que as mulheres aguardam que o quadro de informações das campanhas esteja mais completo, e só se interessam mais fortemente pelas eleições quando o horário eleitoral gratuito começa e os debates entre os candidatos são realizados. Mais ainda, as eleitoras ficam na expectativa de algo que afete diretamente a vida da população, como propostas para a saúde, educação, desemprego e segurança, entre outras. Pela experiência das campanhas anteriores, sabe-se que esse processo de tomada de decisão sobre intenção de voto se dá mais consistentemente durante o período de propaganda eleitoral gratuita.

Eleitoras: decisão de voto mais consciente e consistente

Na véspera do 1º turno da última eleição presidencial (30/09/2006), as pesquisas de intenção de voto indicavam que, se dependesse dos homens, o candidato Lula ganharia no 1º turno; mas as mulheres mostravam que ainda precisavam de uma segunda rodada de campanha para escolher seu candidato. E, embora a mídia e os partidos apostassem em uma decisão no 1º turno, as mulheres levaram as eleições para o 2º turno. Tudo indica que elas não se sentiam suficientemente esclarecidas, e também ficaram relutantes diante dos “dossiês” e de outros eventos de oportunismo eleitoral, que desviaram o foco das propostas voltadas para a população.



Gráfico 1 – Pesquisa Ibope 1º turno (30/09/2006); voto estimulado


Eleições 2006: mulheres eram 61% dos indecisos na véspera das eleições

Em 2006, 16% não haviam escolhido seu candidato no dia anterior ao pleito, sendo 19% mulheres e 12% homens –ou seja, 61% dos indecisos eram mulheres. Este padrão se repetiu em várias eleições no passado.

Como foi dito anteriormente, uma parcela das eleitoras aguarda até o último momento e até a última informação disponível para se definir com mais convicção.



Gráfico 2 – Pesquisa Ibope (setembro/2006)


Eleições 2010: as pesquisas e o fim do ciclo das pré-candidaturas

As pesquisas de maio de 2010 refletem a fase de pré-candidaturas. Os institutos trabalharam com vários cenários de nomes ao longo deste ano e, em todas as rodadas, o mesmo padrão foi observado: mulheres aguardando as próximas etapas do processo e homens mais definidos em suas escolhas.

Por exemplo: na última pesquisa Ibope, realizada no fim de maio, verifica-se na resposta espontânea que 36% estão indecisos, sendo 40% mulheres e 32% homens. Ou seja, o padrão observado se confirma neste estágio da campanha.
Em 2010, foram publicadas 13 rodadas de pesquisas dos institutos Vox Populi, Sensus, Ibope e Datafolha. Em todas elas, a intenção de voto das mulheres em Dilma Rousseff (PT) é inferior a dos homens.



Pesquisa Ibope (maio/2010); arte: G1


Dilma Rousseff –que começou o ano em segundo lugar, atrás de José Serra (PSDB) com uma diferença de 10 pontos– cresce e chega em maio empatada com o adversário (37%), como todos os institutos apontaram.

Contudo, o crescimento de Dilma não anulou as diferenças nas intenções de voto de homens e mulheres. Desde o início de 2010 Dilma Rousseff tem mais votos masculinos e essa diferença tem se mantido estável ao longo do ano, em 9 pontos percentuais. Na pesquisa Ibope de maio, 41% dos homens votariam em Dilma, enquanto apenas 33% das mulheres tinham intenção de votar na candidata do Partido dos Trabalhadores.

Perfil dos eleitores de cada candidato

Segundo a última pesquisa Ibope, os perfis dos eleitores de Serra e Marina Silva (PV) acompanham as proporções do eleitorado brasileiro: 52% de mulheres e 48% de homens. Já o perfil dos eleitores de Dilma Rousseff é mais masculino: 55% de homens e 45% de mulheres. Em outras palavras: o fato de Dilma ser mulher não explica esse perfil mais masculino de seu atual eleitorado, afinal, Marina é mulher e seu eleitorado divide-se proporcionalmente entre os sexos.

Nesse caso, o voto em mulheres precisa ser explicado de outra forma, pois tem a ver diretamente com conteúdos de campanha e discursos que falam mais ou menos às mulheres.



Gráfico 4 – Pesquisa Ibope (maio/2010)

Mulher vota em mulher?

Há um mito arraigado, na mídia e no imaginário popular, de que mulher não vota em mulher, afinal a grande maioria dos postos de poder são ocupados por homens, quando temos 52% de eleitoras e apenas 11% de mulheres parlamentares no Congresso. Ou seja, a maioria das mulheres tem votado em candidatos masculinos para o parlamento.

No entanto é importante lembrar que não faltam eleitoras que votem em mulheres, mas sim candidaturas femininas com estrutura partidária, apoio efetivo em termos de recursos, infraestrutura e tempo no horário de propaganda eleitoral. Historicamente, os partidos políticos são espaços de poder masculino. Em 2008, por exemplo, os partidos não cumpriram a cota de 30% de candidaturas femininas na maior parte das capitais.

Em diversos países em que mulheres apresentaram candidaturas fortes, elas obtiveram votação expressiva, de eleitoras e eleitores. Na América Latina há os exemplos recentes e bem-sucedidos das presidentes Laura Chinchilla (Costa Rica), Michelle Bachelet (Chile) e Cristina Kirchner (Argentina).

Juntas, Dilma e Marina têm 49% das intenções de voto

Nesta eleição, as pesquisas realizadas em maio mostram que a soma das intenções de voto em Dilma Rousseff e Marina Silva chega a 49%, ou seja, 57% dos votos válidos já são dirigidos a candidatas mulheres.

Os discursos proferidos por ocasião da oficialização das candidaturas de Marina Silva, José Serra e Dilma Rousseff ganharam conteúdos programáticos novos e mais abrangentes. Os candidatos fizeram as primeiras propostas que se vinculam às esferas do cotidiano, como educação, desemprego, saúde e políticas sociais em geral.


As mulheres são mais sensíveis às políticas públicas

As pesquisas mostram que há uma diferença de percepção de homens e mulheres em relação aos temas de campanhas. O gráfico seguinte mostra duas esferas de impacto das comunicações eleitorais: de um lado, os homens mostram maior interesse pela esfera do jogo de poder (eleições, preferência partidária e conversa sobre política); de outro, as mulheres estão mais sensíveis a políticas públicas nas áreas de educação e saúde.

Nesta fase de pré-campanha que se encerra, os temas de maior visibilidade estavam ligados aos bastidores da política –alianças partidárias, composição de chapas, lutas internas entre aliados– que mobilizam mais os eleitores homens. Daqui para frente começam a entrar nas campanhas os conteúdos de políticas públicas, que ganham mais a atenção das eleitoras. Nesta última fase as mulheres se engajam mais fortemente e as candidaturas poderão se beneficiar destas características do processo eleitoral.



Gráfico 5 – Pesquisa Datafolha (maio/2010); * pesquisa Vox Populi

Principais atributos de cada candidato na opinião das eleitoras

José Serra
Dilma Rousseff
Marina Silva

Experiência
Defesa dos interesses das mulheres
Defesa dos interesses das mulheres

Preparo para cuidar da Saúde
Defesa dos pobres
Defesa dos pobres

Defesa dos empresários
Combate ao desemprego
Preparo para cuidar da educação

Pesquisa Datafolha (maio/2010)
Quando eleitores e eleitoras associam atributos a cada candidato, fica mais claro o que foi demonstrado anteriormente com relação às esferas do poder político e das políticas do cotidiano. O gráfico a seguir mostra que as mulheres diferenciam Serra por qualidades executivas, ligadas à gestão de políticas que impactam o cotidiano, enquanto associam a Dilma qualidades políticas, relacionadas ao rearranjo das relações de poder e às desigualdades socioeconômicas.

Esta é uma das explicações para a diferença de intenção de voto entre homens e mulheres. Mais voltadas para o cotidiano, as eleitoras vêem em Serra qualidades executivas para a gestão de políticas públicas, como: ser mais experiente para o cargo (60%); mais preparado para cuidar da saúde (47%): e preparado para ser presidente (43%).

Já em Dilma as mulheres percebem mais atributos relacionados a mudanças de poder político, como: a defesa dos interesses das mulheres (40%) e dos pobres (32%) e o combate ao desemprego (31%).

Entre as eleitoras, os indicadores de atributos positivos relacionados a Marina Silva estão próximos da intenção de voto da candidata (12%). Destacam-se três índices entre o eleitorado feminino: a defesa dos interesses das mulheres (22%); a defesa dos pobres (19%) e o preparo para cuidar da educação (13%).



Gráfico 6 – Pesquisa Datafolha (maio/2010)

A maioria das análises publicadas na mídia atribui o crescimento de Dilma Rousseff ao impacto do programa do PT e ao apoio assertivo do presidente Lula. Efetivamente, as pesquisas do Datafolha mostram isso com clareza. Entre abril e maio, o conhecimento de que a candidata de Lula é Dilma cresceu 10 pontos, sendo 6 pontos entre os homens, de 71% para 77%. Já entre as mulheres, esse crescimento foi de 51% para 65%, ou seja, 14 pontos percentuais. Pela TV as eleitoras puderam perceber melhor o discurso de Dilma e ela recuperou terreno neste eleitorado.
De outro lado, é significativo entre as eleitoras o peso do apoio do presidente a Dilma, mas ainda não foi atingido todo o seu potencial.

Em outra questão, o Datafolha indaga com que certeza os eleitores votariam no candidato/a do presidente Lula: 46% dos homens e 43% das mulheres afirmam que este apoio os levaria com certeza a escolher esta candidata. Levando em conta esses dados, a candidatura Dilma Rousseff praticamente chegou perto do teto do voto masculino: ela tem 42% de intenções de voto e o potencial de 46% de homens que votariam, com certeza, na candidata do presidente. No entanto, entre as mulheres Dilma tem 33% das intenções de voto declarado e um potencial de crescimento de 10 pontos percentuais, pois 43% das mulheres declaram que votariam, com certeza, na candidata de Lula. Portanto, quando as candidaturas, chapas e alianças estiverem definidas e a campanha mudar o foco para políticas públicas, as mulheres poderão fazer a diferença para as candidatas Dilma e Marina.

Com relação a Serra é importante notar que a pesquisa Ibope publicada no início de junho aponta a Saúde como o principal problema que o próximo presidente deverá enfrentar. Nesta perspectiva, Serra tem uma clara vantagem em relação aos demais candidatos, mesmo porque foi um ministro bem avaliado da pasta da Saúde (ver o gráfico de atributos ligados aos candidatos).

Daqui para frente as eleições mudam de ciclo, os eleitores e, sobretudo, as eleitoras terão olhos mais abertos para as campanhas. As propostas dos candidatos ganham mais foco nos debates, na propaganda e nos discursos. E as duas candidatas e os nove candidatos* terão que olhar mais para as mulheres. Assim sempre foi e assim será nas eleições de 2010.


* José Serra (PSDB), Rui Pimenta (PCO), Levy Fidélix (PRTB), Oscar Silva (PHS), Plínio de A. Sampaio (PSOL), Mario de Oliveira (PTdoB), José Maria Eymael (PSDC), Américo de Souza (PSL) e Zé Maria (PSTU).

Acesse o artigo na íntegra em pdf: O poder do voto feminino, por Fátima Pacheco Jordão


Sobre a autora: Fátima Pacheco Jordão é socióloga e especialista em pesquisas de opinião. Fundadora do Instituto Patrícia Galvão, é assessora de pesquisa da TV Cultura.

Este artigo foi elaborado no contexto do Projeto Mulheres em Espaços de Poder e Decisão do Instituto Patrícia Galvão, que tem o objetivo de analisar a percepção das mulheres enquanto eleitoras, com base nos levantamentos sobre intenção de voto realizados por institutos de pesquisa de opinião.

Ministra Nilcéia Freire Abre Conferencia

Semana das Mulheres no Poder
Sábado, 17 de Julho de 2010
Ministra abre Conferência
A ministra Nilcéa Freire, da Secretária de Políticas para as Mulheres (SPM), destacou avanços alcançados pelas mulheres nos últimos 15 anos durante a abertura da XI Conferência da Regional sobre a Mulher da América Latina e do Caribe (CEPAL), dia 13/07, em Brasília. Afirmou que 39 países já implantaram algum tipo de mecanismo gestor de políticas para as mulheres, incluindo o Brasil, que em 2003 criou a SPM, este ano elevada a status de Ministério, sendo órgão de função essencial à Presidência da República. A ministra também ressaltou a criação de políticas voltadas para a proteção dos direitos das mulheres nos últimos anos, em especial no enfrentamento à violência contra a mulher, como o Pacto Nacional de Combate à Violência contra a Mulher. Em seu pronunciamento, Nilcéa disse que as diferenças entre as mulheres latino-americanas as unem na busca pelo desenvolvimento e na construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

Michelle Bachelet
A ex-presidenta do Chile, Michelle Bachelet, realizou conferência magna durante a abertura da XI Conferência Regional da Mulher em Brasília. Ela destacou a participação feminina na política, as ações afirmativas para combater a desigualdade de gênero e o empoderamento econômico das mulheres. Bachelet cobrou uma maior participação do Estado na criação de uma plataforma de igualdade entre homens e mulheres, pois segundo ela, a igualdade só acontece ancorada pela democracia e esta deve começar em casa. “Por isso o Estado não pode ser neutro, ao contrário, deve estabelecer sistemas de proteção social. É necessário ter vontade política, atacar as causas e com isso reafirmar o compromisso com a democracia”, enfatizou.

Lançamento de documento
Estudo inédito produzido pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) foi lançado durante a XI Conferência Regional sobre a Mulher da América Latina e do Caribe (CEPAL). O documento: "Que tipo de Estado? Que tipo de igualdade?", supervisionado pela secretária-executiva da CEPAL, Alicia Bárcenaé, analisa o progresso da igualdade de gênero na Região depois de 15 anos da aprovação da Plataforma de Ação de Beijing, 10 anos da formulação dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e três anos da adoção do Consenso de Quito, na Conferência de 2007. Também são verificadas no estudo as conquistas e os desafios que enfrentam os governos, o mercado, as famílias, as instituições sociais que, em conjunto, estabelecem as condições para renovar ou reproduzir as hierarquias sociais e de gênero.
Acesse o documento completo na seção de “Estudos e Pesquisas” do site www.maismulheresnopoderbrasil.com.br
Que tipo de Estado? Que tipo de igualdade?
ONU Mulheres
Durante a XI Conferência Regional da Mulher esta semana, o UNIFEM apresentou às ministras da América Latina a ONU Mulheres – Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres, criada no último dia 2/07, pela Assembleia Geral das Nações Unidas.
Reitoras
Como noticiou o jornal “Tribuna do Norte”, pela primeira vez duas mulheres disputam a reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. São as professoras Ângela Cruz e Arlete Araújo, esta última disputando o cargo pela segunda vez.
Homenagem às mulheres na Marinha
A Câmara realizou esta semana sessão solene em homenagem aos 30 anos do ingresso das mulheres na Marinha brasileira. Segundo a Agência Câmara, as mulheres representam cerca de 6% dos integrantes da Marinha, 3.724 mulheres entre oficiais e praças em um efetivo de 61.437 militares. A deputada Jô Moraes (PCdoB-MG), que solicitou a sessão, afirmou que ainda há muito a avançar, mas as mulheres militares já ocupam cargos de direção e vice-direção na Marinha. Lembrou que o ingresso das mulheres na Marinha foi possibilitado pela Lei 6.807/80, que criou o Corpo Auxiliar Feminino da Reserva para atuar na área técnica e administrativa. "Com essa iniciativa, na década de 80, a Marinha serviu de parâmetro às demais instituições das Forças Armadas". Com a Lei 9.519, de 1997, houve uma reestruturação dos corpos e quadros de oficiais e praças, extinção do Corpo Auxiliar Feminino e permissão para incorporação das mulheres em situação de paridade com os demais militares. Hoje, as militares atuam nas mais diversas áreas, podendo chegar até ao posto de almirante.
Durante a sessão, o deputado Wilson Picler (PDT-PR) destacou que falta às mulheres a possibilidade de incorporar o corpo de combatentes das Forças Armadas brasileiras. Já a deputada Maria Helena (PSB-RR), procuradora especial da Mulher na Câmara, lembrou que as mulheres estavam presentes nas Forças Armadas nacionais, em tempos de guerras e revoluções. Citou os casos de Maria Quitéria, que integrou o batalhão de Periquitos, na Bahia, em 1823, de Ana Vieira, que lutou clandestinamente na Revolução Constitucionalista de 1932, em São Paulo, além de Anita Garibaldi, que participou da Guerra dos Farrapos.
Desigualdade na Ásia-Pacífico
Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) realizado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) recomenda aos países da Ásia-Pacífico políticas que promovam avanços nos direitos legais femininos e políticas públicas de apoio ao empoderamento das mulheres e que promovam a voz delas na política, inclusive com a implementação de um sistema de cotas. Segundo o relatório, alcançar a igualdade de gênero é imprescindível para o aumento do desenvolvimento humano para toda a sociedade e central para que os países possam atingir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Estima-se que a falta de participação feminina na força de trabalho custa US$ 89 bilhões por ano ao território, cerca de R$ 160 bilhões. Apesar de leis que garantem pagamento igualitário a homens e mulheres, elas ainda recebem entre 54% e 90% do que eles ganham, tornando-as mais vulneráveis à pobreza. Também são grandes vítimas de HIV e violência doméstica. Segundo o PNUD, a baixa representatividade de mulheres nas instituições políticas, econômicas e legais de suas nações contribui com a manutenção da desigualdade de gênero. “Muitas decisões políticas ainda são tomadas por homens. E essas decisões, provavelmente, não seriam as que muitas mulheres tomariam”.
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